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Alimentos ultraprocessados já ocupam quase um quarto da alimentação do brasileiro, revela estudo

Pesquisa em 93 países mostra avanço acelerado dos ultraprocessados em 91 deles e reforça ligação com obesidade e doenças crônicas

O que você coloca no prato hoje pode definir sua saúde nas próximas décadas. Um conjunto de artigos publicado nesta terça-feira (18) na revista científica The Lancet acende um alerta: a presença de alimentos ultraprocessados na alimentação dos brasileiros mais do que dobrou desde os anos 1980, saltando de 10% para 23% do total consumido.

Os trabalhos, assinados por mais de 40 cientistas de vários países e liderados por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), mostram que o cenário brasileiro é parte de uma transformação silenciosa – e global – na forma como o mundo está se alimentando.

Brasil não é exceção: consumo dispara em 91 de 93 países

A análise de dados de 93 países indica que o consumo de ultraprocessados aumentou em 91 deles ao longo das últimas décadas. Só o Reino Unido fugiu à regra: o índice se manteve estável, mas em um patamar altíssimo – cerca de 50% da dieta.

Nos Estados Unidos, a situação é ainda mais extrema: mais de 60% da alimentação da população é composta por produtos ultraprocessados.

Em outros países, o crescimento foi explosivo. Em apenas 30 anos, o consumo desse tipo de produto triplicou na Espanha e na Coreia do Norte, atingindo por volta de 32% da alimentação. Na China, a participação dos ultraprocessados nas compras das famílias subiu de 3,5% para 10,4% no mesmo período.

Na Argentina, o avanço foi mais moderado, mas ainda preocupante: a fatia passou de 19% para 29%.

Os artigos apontam que o aumento é consistente em países de baixa, média e alta renda. Os mais ricos já partiam de níveis elevados; nações mais pobres registraram as altas mais acentuadas. Dentro de cada país, primeiro os produtos chegam às camadas de maior renda e, em seguida, espalham-se para o restante da população.

“Lucros extraordinários” e reestruturação da dieta mundial

À frente da pesquisa, o epidemiologista Carlos Monteiro, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens/USP), afirma que essa mudança não é fruto de escolhas individuais isoladas, mas de uma estratégia global de grandes corporações de alimentos.

Segundo ele, empresas multinacionais passaram a priorizar produtos ultraprocessados por garantirem “lucros extraordinários”, sustentados por campanhas de marketing agressivas e forte lobby político. Esse poder econômico, apontam os artigos, tem sido usado para barrar ou enfraquecer políticas públicas de promoção de alimentação saudável.

Em resumo: nossa dieta está sendo reestruturada em escala mundial, puxada por um modelo de negócio que favorece produtos baratos, de alto giro e longa durabilidade, em detrimento de alimentos frescos.

Do pós-guerra à globalização: quando os ultraprocessados tomaram o mundo

Os pesquisadores lembram que os ultraprocessados começaram a ganhar espaço em países ricos logo após a Segunda Guerra Mundial, mas foi a partir dos anos 1980, com a globalização e a expansão das grandes corporações, que se tornaram um fenômeno mundial.

Nesse mesmo período, as taxas globais de obesidade e de doenças como diabetes tipo 2, câncer colorretal e doença inflamatória intestinal dispararam.

Uma revisão sistemática feita pelos autores analisou 104 estudos de longo prazo sobre o tema. Em 92 deles, o consumo elevado de ultraprocessados esteve associado a maior risco de uma ou mais doenças crônicas, incluindo câncer, problemas cardiovasculares e distúrbios metabólicos.

Os cientistas concluem que a substituição de padrões alimentares tradicionais por produtos ultraprocessados é hoje um dos fatores centrais para o aumento da carga global de doenças crônicas relacionadas à alimentação. E fazem um alerta: esperar mais evidências não pode servir de desculpa para adiar políticas públicas que promovam dietas baseadas em alimentos integrais e preparações culinárias.

Afinal, o que são alimentos ultraprocessados?

O termo “alimentos ultraprocessados” se popularizou a partir de 2009, com a criação da classificação NOVA, desenvolvida por pesquisadores brasileiros e hoje referência internacional em políticas de nutrição. Ela organiza os alimentos em quatro grupos, de acordo com o grau de processamento industrial:

  1. Alimentos in natura ou minimamente processados
    São vendidos em sua forma natural ou após processos que mantêm a estrutura original, como congelamento, moagem, embalagem ou fracionamento.
    Exemplos: frutas, legumes, verduras, carnes, peixes, grãos e cereais embalados.
  2. Ingredientes processados
    Derivados de alimentos in natura, usados principalmente no preparo de outros alimentos.
    Exemplos: óleos vegetais (como óleo de soja), açúcar, sal.
  3. Alimentos processados
    Resultam da combinação de alimentos do grupo 1 com ingredientes do grupo 2, por meio de técnicas semelhantes às usadas em cozinhas domésticas.
    Exemplos: legumes e peixes enlatados, pães simples, massas, queijos, sucos 100% de fruta.
  4. Alimentos ultraprocessados
    São formulações industriais feitas a partir de frações de alimentos in natura baratos, combinadas com uma grande quantidade de aditivos químicos (corantes, aromatizantes, emulsificantes, edulcorantes, entre outros).
    Objetivo: torná-los altamente duráveis, prontos para consumo, muito palatáveis e, muitas vezes, “viciantes” ao paladar.
    Exemplos: biscoitos recheados, refrigerantes, macarrão instantâneo, salgadinhos de pacote, iogurtes saborizados, cereais matinais açucarados.

A classificação NOVA, liderada também por Carlos Monteiro, foi incorporada ao Guia Alimentar para a População Brasileira, elaborado pelo Nupens para o Ministério da Saúde. A ideia central é simples e poderosa: mostrar como o grau de processamento impacta a qualidade da dieta e a saúde.

O grupo de pesquisa destaca que, há cerca de 20 anos, ao monitorar mudanças na produção de alimentos no Brasil ligadas ao aumento da obesidade, percebeu-se uma virada de propósito: o processamento deixou de focar na preservação de alimentos e passou a ser usado para criar substitutos ultrabaratos para alimentos de verdade, com base em ingredientes refinados e aditivos.

Recomendações: como frear o avanço dos ultraprocessados

Os artigos não se limitam a apontar o problema: trazem um conjunto de recomendações concretas para reduzir o consumo de ultraprocessados e responsabilizar grandes empresas pelo impacto de suas sobre a saúde pública. Entre as principais propostas estão:

  • Rotulagem clara de aditivos
    Indicar de forma destacada, nos rótulos, a presença de corantes, aromatizantes e outros aditivos, além de sinalizar excesso de gordura, açúcar e sal. A transparência é vista como ferramenta essencial para que o consumidor entenda o que está comprando.
  • Restrição em escolas e hospitais
    Uma das medidas consideradas mais urgentes é proibir a oferta de ultraprocessados em instituições públicas, especialmente escolas e unidades de saúde.
    Nesse ponto, o Brasil aparece como exemplo positivo graças ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que vem reduzindo a presença desses produtos nas merendas e estabeleceu que, a partir do ano que vem, 90% dos alimentos servidos sejam frescos ou minimamente processados.
  • Controle da publicidade, sobretudo para crianças
    Os autores recomendam regras mais rígidas para propaganda de ultraprocessados, com foco especial na comunicação direcionada ao público infantil, altamente vulnerável a estratégias de marketing.
  • Sobretaxa para ultraprocessados e incentivo a alimentos frescos
    Uma das estratégias sugeridas é taxar determinados produtos ultraprocessados e usar esses recursos para subsidiar alimentos in natura e saudáveis destinados a famílias de baixa renda, aumentando o acesso a opções de melhor qualidade.

Indivíduo não é o vilão: foco nas grandes corporações

Um ponto enfatizado pelos pesquisadores é que o aumento no consumo de ultraprocessados não pode ser reduzido a uma questão de “força de vontade” individual.

Segundo os autores, empresas globais estruturam suas cadeias produtivas com ingredientes baratos e métodos industriais que reduzem custos, e depois impulsionam o consumo com embalagens chamativas, campanhas de marketing massivas e presença intensa em todos os pontos de venda.

Com vendas globais estimadas em US$ 1,9 trilhão por ano, os ultraprocessados formam hoje o setor mais lucrativo da indústria alimentícia. Esse poder econômico se retroalimenta: quanto mais vendem, mais recursos essas corporações têm para expandir produção, influência política e presença de mercado – e, assim, moldar padrões alimentares em escala mundial.

Para o leitor, a mensagem central é direta: entender o que são ultraprocessados e como eles ocupam espaço crescente no dia a dia é o primeiro passo para fazer escolhas mais conscientes. Mas, alertam os cientistas, mudanças estruturais dependem sobretudo de políticas públicas robustas e de um enfrentamento claro ao poder corporativo que hoje dita, em grande parte, o que chega, ou não, ao seu prato.

Fonte – Agência Brasil

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